A decisão do Copom de cortar a Selic em 0,5 ponto percentual foi recebida com entusiasmo nos mercados financeiros. Mas para a dona de casa de Fortaleza que paga 18% ao mês no rotativo do cartão de crédito, a notícia ainda não chegou — e pode demorar bastante.

Existe uma distância considerável entre a taxa básica de juros e o que os bancos cobram dos consumidores. Essa distância tem nome: spread bancário. E no Brasil, ele é um dos maiores do mundo.

Por que o crédito não fica mais barato na mesma velocidade

Quando o Banco Central reduz a Selic, os bancos não são obrigados a repassar imediatamente essa redução para os clientes. O repasse acontece de forma gradual, e com intensidade variável dependendo do tipo de crédito.

Crédito imobiliário e financiamento de veículos tendem a sentir o efeito mais rápido — geralmente em três a seis meses. Crédito pessoal e cartão de crédito são os mais lentos, e em alguns casos o repasse é praticamente inexistente.

"O spread bancário no Brasil tem componentes estruturais que não dependem da Selic: inadimplência alta, custos operacionais elevados e concentração bancária. Cortar a Selic não resolve esses problemas automaticamente." — Economista Paulo Henrique Leal, Insper

Quem se beneficia de verdade

O ciclo de queda de juros favorece, de forma mais direta, quem tem dívidas indexadas à taxa DI — como alguns contratos de crédito consignado e financiamentos com cláusula de variação. Também beneficia empresas que captam recursos no mercado de capitais.

Para o consumidor comum, o efeito mais tangível costuma ser indireto: com crédito mais barato para empresas, o investimento tende a crescer, o que pode gerar empregos e, em tese, aumentar a renda. Mas esse mecanismo leva tempo e depende de outras condições.

O que fazer enquanto espera

Especialistas em finanças pessoais ouvidos pelo PureBR têm uma recomendação consistente: não espere o banco reduzir sua taxa espontaneamente. Negocie. Bancos têm margem para oferecer condições melhores, especialmente para clientes com bom histórico de pagamento.

Portabilidade de crédito — a possibilidade de transferir uma dívida para outro banco com taxa menor — é um instrumento subutilizado no Brasil. Segundo o Banco Central, menos de 3% dos contratos elegíveis passaram por portabilidade nos últimos 12 meses.

A queda da Selic é uma boa notícia. Mas tratá-la como solução automática para o endividamento das famílias brasileiras é, no mínimo, otimismo prematuro.