São 6h40 da manhã em São Paulo. Na Avenida Tiradentes, zona leste, a fila no ponto de ônibus já tem trinta pessoas. Quando o coletivo chega, lotado, cerca de metade consegue embarcar. Quem fica espera o próximo — e corre o risco de chegar atrasado ao trabalho. Essa cena se repete, com variações de intensidade, em praticamente todas as grandes cidades brasileiras.
O transporte coletivo é o fio condutor do cotidiano urbano. Segundo o IBGE, 42 milhões de brasileiros usam ônibus como principal meio de deslocamento diário. Para eles, atrasos, superlotação e tarifas em alta não são abstrações estatísticas — são a diferença entre chegar no horário e perder um dia de trabalho.
Pesquisa com 1.200 passageiros
Para esta reportagem, o Pure aplicou questionário a 1.200 usuários de transporte coletivo em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador — as três maiores redes de ônibus do país. O tempo médio de deslocamento porta a porta, incluindo caminhada e espera, foi de 87 minutos por trajeto. Em São Paulo, o número sobe para 94 minutos.
Quando perguntados sobre o principal problema do sistema, 62% citaram superlotação. Atrasos aparecem em segundo lugar, com 24%. Tarifa alta foi mencionada por 11%. Os 3% restantes apontaram outras questões, como falta de acessibilidade e insegurança nos pontos.
São Paulo: a cidade que nunca para — e os ônibus também não deveriam
A SPTrans, empresa responsável pelo transporte coletivo na capital paulista, opera com frota de aproximadamente 13.200 ônibus. Mesmo assim, dados internos obtidos pelo Pure mostram que 38% das linhas registraram superlotação em horário de pico durante o mês de maio.
Em nota, a SPTrans afirmou que "investimentos em corredores de ônibus e renovação de frota estão em andamento" e que a superlotação "é um problema histórico em cidades com alta densidade populacional". A empresa não detalhou cronograma nem orçamento dos projetos mencionados.
Eu saio de casa às 5h30 para começar a trabalhar às 8h. Moro a 12 quilômetros do emprego. De carro, seriam 40 minutos. De ônibus, nunca menos de uma hora e meia. — João Pedro Silva, auxiliar de produção, 29 anos
Rio de Janeiro: tarifa e qualidade
No Rio, o debate sobre transporte coletivo ganhou nova urgência após o reajuste da tarifa de R$ 4,30 para R$ 4,70 em março de 2026. Associações de passageiros calculam que o gasto mensal de quem usa dois ônibus por dia subiu de R$ 172 para R$ 188 — valor significativo para quem ganha um ou dois salários mínimos.
A concessionária que opera parte das linhas argumenta que o reajuste é necessário para cobrir aumento do diesel e manutenção da frota. Passageiros contestam, apontando que a qualidade do serviço não acompanhou o preço: ar-condicionado quebrado, bancos danificados e intervalos maiores entre veículos são queixas recorrentes.
Salvador: integração e esperança
Salvador apresenta cenário ligeiramente diferente. O sistema de integração tarifária — que permite usar até três ônibus pagando uma única passagem — é elogiado por 71% dos entrevistados. O problema principal na capital baiana é a cobertura: bairros periféricos como Pirajá e Valéria têm intervalos de até 40 minutos entre coletivos em horário não-pico.
A prefeitura anunciou em maio a construção de dois novos terminais integrados na periferia, com previsão de inauguração para 2028. Moradores ouvidos pelo Pure receberam a notícia com ceticismo pragmático: "Já ouvimos promessa assim antes", disse Maria José, comerciante de Pirajá.
Transporte nas eleições
Com eleições municipais em outubro, o transporte coletivo volta ao centro do debate político. Em São Paulo, um candidato promete tarifa zero em fins de semana. No Rio, outro defende subsídio federal para conter reajustes. Em Salvador, a discussão gira em torno de expandir a integração para cidades da região metropolitana.
Especialistas em mobilidade urbana alertam que promessas eleitorais raramente se traduzem em melhorias rápidas. "Transporte coletivo de qualidade exige investimento de longo prazo, planejamento integrado e participação da sociedade — não decreto de campanha", afirma Renata Cunha, urbanista e professora da UFRJ.
O ônibus como espelho
Se há um lugar onde as desigualdades brasileiras ficam visíveis sem filtro, é o interior de um ônibus lotado às 7h da manhã. Ali estão a enfermeira que dormiu quatro horas, o estudante universitário que estuda em pé, o vendedor ambulante que depende de pontualidade para montar a banca. O transporte coletivo não é um tema secundário — é o termômetro mais honesto do cotidiano urbano.