Ir ao supermercado virou exercício de matemática para milhões de brasileiros. Um levantamento realizado pelo Pure em cinco capitais — São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre — mostra que a cesta básica subiu entre 9% e 14% nos últimos doze meses, bem acima da inflação oficial medida pelo IPCA no mesmo período.
Para entender o que isso significa na prática, acompanhamos durante três semanas o orçamento de seis famílias de classe média — rendimento entre três e seis salários mínimos. Todas relataram cortes em lazer, educação extracurricular e plano de saúde. Nenhuma conseguiu manter o padrão de consumo de 2024 sem endividamento.
Os números por cidade
Em São Paulo, a cesta básica calculada pelo Dieese — conjunto de produtos essenciais para uma família de quatro pessoas — atingiu R$ 782,40 em maio de 2026. No mesmo mês de 2025, o valor era R$ 686,20. O aumento de 14% foi puxado principalmente por carnes, óleo de soja e café.
No Rio de Janeiro, a alta foi de 11,8%. Belo Horizonte registrou 10,2%. Recife, 9,7%. Porto Alegre, 12,3%. Em todas as cidades, moradia — aluguel ou prestação de financiamento — consome entre 28% e 35% da renda familiar, segundo dados compilados a partir das entrevistas.
A estratégia das feiras livres
Paula Nascimento, 38 anos, professora em São Paulo, passou a fazer compras semanais na feira de bairro em vez do supermercado. "Economizo cerca de R$ 180 por mês só em hortifrúti", conta. "Mas perco duas horas todo sábado de manhã, e nem sempre encontro tudo que preciso."
A migração para feiras livres e mercados municipais é um fenômeno observado em todas as cidades visitadas. Vendedores relatam aumento de 20% a 30% no movimento em relação ao ano anterior. Produtores rurais próximos às metrópoles são os principais beneficiados.
Descompasso entre inflação oficial e percepção
Economistas ouvidos pelo Pure apontam um descompasso estrutural entre o IPCA e a experiência real de consumo das famílias urbanas. O índice oficial pondera uma cesta ampla de produtos e serviços; famílias de renda média concentram gastos em itens que subiram mais: alimentação, energia elétrica e transporte.
O IPCA mede a inflação média do país. Para a família que ganha entre R$ 6.000 e R$ 12.000 em São Paulo, a inflação percebida pode ser três a quatro pontos percentuais acima. — Henrique Alves, economista da PUC-Rio
Endividamento em alta
Dados do Banco Central mostram que o endividamento das famílias brasileiras atingiu 48,7% em abril de 2026 — o maior patamar desde 2020. Cartão de crédito e cheque especial são os principais vilões. Entre as famílias entrevistadas, quatro de seis usam rotativo do cartão para cobrir despesas do fim do mês.
Carlos Eduardo, analista de sistemas no Rio, resume a situação: "Ganho mais do que ganhava há três anos, mas sobra menos. Não é que eu esteja gastando mais com supérfluo — é que o básico ficou caro demais."
O que esperar nos próximos meses
Analistas consultados pelo Pure divergem sobre a trajetória dos preços no segundo semestre. Parte acredita em desaceleração graças à safra recorde de grãos e à queda do dólar no primeiro trimestre. Outros alertam que a pressão cambial de maio e junho pode reverter ganhos recentes, especialmente em produtos importados.
Para as famílias, a equação é mais simples e mais dura: continuar recalculando, cortando e buscando alternativas — enquanto esperam que a renda acompanhe, um dia, o custo de viver nas metrópoles brasileiras.